Relembrando Sonic Generations

Dizer que a SEGA maltrata pra caramba o seu tradicional mascote é chutar cachorro morto. Com pouquíssimas exceções, há tempos não se produz um game de boa qualidade do Sonic. Entretanto, apesar de esta ser a franquia da minha infância – Sonic The Hedgehog para Mega Drive foi o grande culpado por eu gostar tanto de videogames – pergunto-me se o porco-espinho ouriço mais rápido do mundo realmente teria o mesmo apelo de outrora caso a SEGA ainda conseguisse criar bons games dele atualmente.

Seja como for, o fato é que estamos em meio às comemorações dos 25 anos da criação do Sonic. Como de costume, a SEGA já está promovendo diversas iniciativas para comemorar esse acontecimento ao longo deste ano – e já prometeu um novo game para 2017. Tudo isso me lembrou de quando eu joguei um dos games recentes mais sensacionais que a SEGA já conseguiu fazer e de quando eu escrevi uma resenha sobre ele no meu antigo blog de games alguns anos atrás.

Sim, a coluna Relembrando é mesmo somente sobre jogos retrô e Sonic Generations não é exatamente um jogo tão antigo assim (5 anos não é nada gente, sério), mas o Sonic é um mascote das antigas, de uma época respeitável da indústria dos games. Por isso resolvi cavucar os meus arquivos, tirar a poeira desse meu velho texto e republicá-lo aqui no Conquista. Não deixa de ser uma boa pra quem ainda não conhece este jogo pensar em dar uma chance e pegá-lo em alguma promoção.

O texto a seguir havia sido publicado pela primeira vez em 16 de janeiro de 2012. Espero que gostem. ^^

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Lembro como se fosse ontem da primeira vez que eu joguei um game do Sonic. Foi na locadora que tinha acabado de abrir aqui na rua onde eu moro. Eu devia ter uns 7 anos e até então não conhecia videogames. Um garoto mais velho (acho que era o dono da locadora ou apenas trabalhava lá, não lembro bem) me chamou para ver as pessoas jogando e apontou pra uma TV que exibia um cenário muito colorido e movimentado. Ao centro, a tela mostrava aquele simpático bichinho azul de sapatos vermelhos correndo feito louco, pulando pra lá e pra cá, pegando argolas, virando bolinha e praticamente voando na tela.

Pra um garoto de 7 anos de hoje em dia isso pode parecer uma completa besteira, mas aquilo me deixou simplesmente fascinado! Meu pai apareceu logo depois e – percebendo o que me prendia a atenção – “pagou meia hora” e me deixou jogar pela primeira vez.

Por mais que eu tenha me divertido pra caramba ao longo dos anos com os consoles Nintendo e com os games do Mario, ao contrário da maioria dos jogadores eu nunca tive os jogos do encanador bigodudo como meus favoritos, preferindo jogar os games do Sonic. Com o passar dos anos, embora eu não tenha jogado tanto os games mais novos, fui acompanhando de perto as transformações pelas quais a franquia do mascote da SEGA passou, desde os primeiros jogos em 3D lançados para o Dreamcast (os únicos que eu tive oportunidade de jogar pra valer). Embora eu tivesse gostado pra caramba desses dois jogos (especialmente do Sonic Adventure 2 e sua fantástica música da primeira fase), era notável como a SEGA não conseguia empregar os conceitos de velocidade e exploração vistos nos títulos do Mega Drive em um universo tridimensional, resultando em cenários com gráficos “quebrados”, controles desajeitados e uma câmera que mais atrapalhava do que ajudava.

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Com o passar dos anos, mais e mais jogos foram sendo lançados, um mais decepcionante que o outro e embora tenha ocorrido algumas ótimas exceções (trilogia Sonic Advance, tô falando de vocês!), os fãs do ouriço azul estavam mais do que saudosos por títulos que evocassem a emoção que sentiam ao jogar os primeiros games da era 16 bits. Mas a SEGA parecia simplesmente não dar ouvidos e continuava cometendo os mesmos erros do tempo do Dreamcast. A maior esperança que havia surgido era o Sonic the Hedgehog 4: Episode 1, que se provou ser um completo fracasso, enquanto que Sonic Colors agradou apenas até certo ponto.

Com o aniversário de 20 anos do mascote da SEGA se aproximando, tal empresa tinha que fazer alguma coisa, certo? Não sei o que deu na cabeça do pessoal do Sonic Team – talvez tenha sido não apenas a choradeira dos fãs (eu incluso), mas também a possibilidade real de um game 3D decente do Sonic sendo demonstrada por desenvolvedores independentes – mas pelo visto eles estavam dispostos a provar a todos que aprenderam a lição e compensar os já não tão fiéis fãs do Sonic pela espera. Com a promessa de unir o melhor dos dois mundos, Sonic Generations aposta suas fichas na nostalgia do Sonic barrigudinho pra reconquistar nossa confiança, ao mesmo tempo que nos pede pra dar mais uma chance ao Sonic de olhos verdes e porte atlético.

E aí? Será que esse jogo quebrou aquele tão famigerado ciclo? Será que estamos diante de um verdadeiro game do Sonic? E o principal: será que finalmente eu vou parar de xingar a SEGA?

Sem xurumelas!

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Ao apertarmos Start/Enter e iniciarmos nosso jogo ele já vai direto ao que interessa e nos dá aquilo que todos nós queríamos: Green Hill Zone, o Sonic clássico à esquerda, três argolas à direita e todo um belíssimo cenário só esperando pra gente esmagar o direcional pra direita à vontade! Ao passarmos por essa fase introdutória, uma pequena cutscene já nos mostra como a SEGA resolveu tratar o Sonic clássico com todo carinho, evitando até mesmo dar uma voz pra ele, que fica muito simpático fazendo gestos pra se comunicar durante o jogo inteiro, lembrando muito o Mario em Super Mario RPG!

Logo em seguida a cena corta para o Sonic moderno, que está comemorando seu vigésimo aniversário com seus amigos ridículos e com o Tails (o único amigo do Sonic que é legal) quando todos eles são sequestrados por um estranho monstro voador, que foge por um buraco temporal aberto no céu. Sonic parte para o resgate, dando início à incursão na versão moderna e repaginada da Green Hill Zone e ao se encontrar com sua contraparte barrigudinha dos anos 1990, une forças com ele para reverter o fluxo do tempo e salvar seus amigos.

Rápido, rasteiro e preciso!

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Quem leu minhas primeiras impressões [Nota: na época em que escrevi este texto eu havia publicado uns dias antes um “primeiras impressões” da demo de Sonic Generations] já sabe as ressalvas que eu fiz a respeito da física de Sonic Generations, que embora estivesse quase perfeita (graças ao uso da engine Havok Physics), ainda precisava ser melhorada em diversos pequenos aspectos. Agora que o jogo foi lançado, finalmente eu pude entender o que a SEGA estava planejando com aquilo!

Sim, pois além de o Sonic Team melhorar muitas coisas que estavam defeituosas – mudar repentinamente a direção, pular em molas, etc. – outros pequenos defeitos foram propositalmente mantidos para que fizessem parte da jogabilidade, a fim de serem eliminados pelo jogador com a compra de skills. As skills são compradas com pontos ganhos ao terminar as fases e fazem com que Sonic suba ladeiras e rampas com mais facilidade, recupere-se rapidamente após perder as argolas e por aí vai. Uma medida bem esperta, que não apenas restaurou a sensação de jogar no Mega Drive como acrescentou um recurso bem legal pra variar a jogabilidade!

De qualquer forma, como na minha opinião jogar com o Sonic clássico ficou super satisfatório, resolvi analisar somente a jogabilidade do Sonic moderno desta vez e fiquei impressionado com a maneira como a SEGA melhorou a forma de jogar em quase todos os aspectos! Diversas coisas que irritavam os jogadores desde o tempo do Dreamcast foram remediadas e o que antes era motivo de frustração – com o jogador perdendo o controle do ouriço frequentemente – acabou se tornando uma experiência incrível!

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Quem lembra da câmera dos jogos anteriores, por exemplo, sabe o quão irritante era aquilo. Você mexia apenas pra direita e pra esquerda e nenhuma posição era satisfatória, deixando objetos bloqueando a visão do jogador quase o tempo todo. E o que foi que a SEGA fez? Simplesmente tirou o controle da câmera das mãos do jogador, tornando-a automática e dinâmica a cada trecho das fases, sempre mostrando a ação da melhor maneira possível. Para evitar que o jogador se enrole nas transições de jogabilidade 3D para 2,5D (no caso do Sonic moderno) a câmera vai mudando gradativamente de um trecho a outro do jogo, como se nos preparasse para mudar o direcional e manter o Sonic correndo a toda velocidade.

Já os controles ficaram quase perfeitos, alternando entre jogabilidade 2,5D, totalmente 3D e momentos em que o jogador apenas deve desviar de obstáculos apertando os botões de esquiva (LB e RB com o controle do Xbox 360) enquanto corre feito um desembestado. Apenas em alguns momentos eu não conseguia manter o Sonic correndo em linha reta, dada a alta sensibilidade do analógico esquerdo, o que fazia eu preferir jogar no teclado de vez em quando, mas nada de muito grave (talvez eu apenas precise recalibrar meu controle).

Rolling around at the speed of sound…

Se há uma característica de todos os games do mascote da SEGA – mesmo os ruins – que é unanimidade entre os jogadores é a qualidade da trilha sonora. Talvez com exceção do Sonic 3D Blast (cujas músicas eu achei bem tosquinhas), todos os títulos do borrão azul tem faixas simplesmente memoráveis!

O Sonic Team segue novamente essa cartilha recheando Generations de remixes de músicas das fases mais marcantes dos 9 jogos selecionados para compor seu universo. Cada uma das músicas tem arranjos eletrônicos e retrô para as primeiras e mais clássicas fases, evoluindo para o rock nervoso da era Dreamcast e chegando a um tom épico e divertido nas três fases finais, que representam os jogos multiplataforma mais recentes. E TODAS são absurdamente bem feitas e agradáveis de ouvir!

Como não sentir saudade dos meus tempos de pirralho de locadora quando joguei Sonic pela primeira vez, ao ouvir a música de Green Hill? Como não viajar na melodia cativante de Sky Sanctuary? Como não se sentir instigado com o clima sonoro de ação e adrenalina em Crisis City? E como não curtir de montão o excelente trabalho do cantor Tony Harnell em City Escape, quase desejando uma legenda a la “karaokê” no rodapé da tela pra poder cantar junto?

Sério, meus caros, quando ouço a versão moderna da música da fase Rooftop Run a vontade que me dá é de jogar tudo pro alto e sair correndo!

Conseguiu a façanha de enjoar da trilha sonora padrão? Nem se desespere: entre as dezenas de desbloqueáveis (artworks, cutscenes e modelos dos personagens da franquia) estão faixas extraídas diretamente de todos os games do Sonic pra você ouvir sempre que quiser – e ainda trocar as músicas das fases por qualquer uma das músicas desbloqueadas pra curtir enquanto joga!

Estranho sentir saudade de um game que nunca joguei ou evitava jogar

E essas fases, hein? Como não ficar impressionado com o esmero da equipe da SEGA em recriá-las de forma tão caprichada?

Geralmente quando falamos de um jogo antigo qualquer que era 2D e virou 3D, o que nos vem à cabeça são versões tridimensionais iguaizinhas às versões originais em 2D do tal jogo. Claro que isso não é necessariamente ruim, pelo contrário: geralmente é o que nós jogadores costumamos pedir, espernear e choramingar. Entretanto, ao jogar Sonic Generations, nota-se que o Sonic Team fez muto mais do que isso!

Eu nem vou falar muito sobre as três primeiras fases – Green Hill, Chemical Plant e Sky Sanctuary – pois já era esperado que os desenvolvedores recriassem fases concebidas há duas décadas. O que mais me deixa admirado são as fases restantes em suas versões clássicas, justamente por jamais terem sido feitas em gráficos de 16 bits antes! Todas elas passaram por uma reimaginação total e foram pensadas como se existissem originalmente em jogos antigos da franquia, com desafios, obstáculos e elementos tirados direto do Mega Drive e perfeitamente implementados em Sonic Generations.

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É muito legal notar que o Sonic Team realmente pensou em como fases de Sonic Unleashed ou de Sonic The Hedgehog (não o do Mega Drive e sim o que saiu em 2006) seriam se tivessem saído do Sonic The Hedgehog (Esse sim do Mega, hehe) e seguiram essa linha de pensamento ao elaborar o design das fases. Na minha opinião isso foi um exercício de criatividade tão bem executado que me deu vontade de experimentar um desses outros games ruins do Sonic qualquer dia desses (ainda bem que vontade é uma coisa que dá e passa ^^).

Como se não bastasse, muitas dessas fases tem um nível de dificuldade respeitável, fazendo jus ao meu tempo de pirralho de locadora! Quer ficar puto? Jogue Crisis City com o Sonic clássico pra você ver uma coisa!

Juro que vislumbrei uma trollface naquela plaquinha aos 5 minutos e 14 segundos!

Sonic Got Through Act 1

Fases memoráveis. Músicas contagiantes. Nostalgia transbordando da tela da TV. O bom e velho Sonic… E o novo Sonic também, por que não? Tudo isso em um único e maravilhoso game! Sonic Generations veio para ser o alívio que os fãs com mais de 25 anos na cara tanto queriam, além de convidar a atual geração de jogadores a conhecer um dos mascotes da era de ouro dos videogames em pleno auge. Então, se mesmo após ter lido estes 11740 caracteres você ainda estiver se perguntando se Sonic Generations vale a pena ser comprado, simplesmente clique aqui e seja feliz!

Acho que já dá pra perceber que Sonic Generations superou – e muito – todas as minhas expectativas! Claro que não posso dizer que confiei cegamente no potencial da SEGA nesse projeto. Na verdade, depois de Sonic 4 qualquer coisa vinda do Sonic Team era vista por mim com mais ceticismo do que de costume. Mas dessa vez eu simplesmente adorei estar errado!

Obrigado, SEGA. E feliz aniversário, Sonic!