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A simplicidade e a excelência de Chroma Squad

O Giancarlo jogou o novo título da Behold e achou simplesmente espetacular! Confiram porque Chroma Squad merece seu dinheiro em nossa resenha!

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A nostalgia é uma coisa engraçada. Ela é como um filhotinho de gato de Schrödinger: enquanto ainda tá novinho você acha fofo, quer brincar com ele o tempo todo e se diverte pra caramba. Depois de um tempo o gato cresce, você o joga debaixo de uma caixa, segue sua vida e esquece a tal caixa durante anos, até que de repente bate aquela lembrança bacana de quando tinha um filhotinho de gato pra brincar.

Eventualmente a gente resolve olhar debaixo da tal caixa pra ver como tá o bichano no fundo de nossas mentes e pode ter surpresas boas ou ruins no processo. Eu inventei de fazer isso reassistindo Power Rangers na Netflix e fiquei rindo de mim mesmo ao perceber como aquele seriado era uma bela bosta. Descanse em paz, Nicolau*.

Agora corta pra 2015. O Behold Studios, estúdio independente brasileiro responsável por salvar a minha sanidade durante os intervalos da faculdade com o impressionante Knights of Pen & Paper (não perguntem, só comprem. De nada.) lança sua mais nova empreitada após uma bem-sucedida campanha de crowdfunding, alguns perrengues judiciais e um ou outro atraso. Em 30 de abril lá estava eu abrindo minha carteira e adquirindo minha chance de acompanhar as desventuras de cinco jovens atores de seriados japoneses, que cansaram do seu chefe babaca e abriram seu próprio estúdio de TV.

Chroma Squad é o nome do jogo. Mas também poderia ser o nome da série Super Sentai mais divertida que eu já tive o prazer de acompanhar!

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Sim, a promessa do pessoal do Behold se cumpriu e seu mais novo jogo é mesmo um verdadeiro deleite para quem ama os seriados japoneses de grupos de heróis. Referências à cultura dos Tokusatsus e Sentais e brincadeiras com a cultura pop em doses cavalares – fórmula de sucesso de Pen & Paper que foi extrapolada aqui – fazem de Chroma Squad um jogo atemporal, que com certeza não obriga ninguém a ter visto Jaspion, Changeman e Kamen Rider na TV Manchete para apreciar a aventura e se divertir com seus desafios. Tanto quem teve essa vivência no passado quanto quem acompanha as produções japonesas atuais terão neste jogo zilhões de motivos pra ao menos dar um sorriso de canto de boca.

Mas desconsiderando um pouco o óbvio apelo nostálgico, se eu pudesse definir Chroma Squad com apenas uma palavra, essa palavra seria simplicidade. E olha que estamos falando de um jogo que tenta ser dois na verdade: ele é ao mesmo tempo um RPG Estratégico e um simulador de gestão de estúdio de TV, lembrando bastante jogos como GameDev Story e GameDev Tycoon. Essas duas facetas do jogo do Behold se misturam perfeitamente e são muito agradáveis de jogar!

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Chroma Squad nunca atrapalha o jogador tentando provar a todo custo que é um RPG Estratégico, abrindo mão de muitas das características complexas que vemos nos RPGs digitais que costumamos jogar. A evolução dos personagens é uma delas, sendo unicamente baseada nas fantasias que os heróis vestem e nas armas que eles usam. Derrote inimigos para conseguir materiais como tecidos, algodão, borracha, massinha de modelar, cacos de vidro e outros, a serem usados para confeccionar fantasias e armas cada vez melhores e mais bonitas.

O jogo oferece um eficiente e divertido sistema de crafting, disponível na lojinha, que permite juntar materiais e fabricar peças de roupa, bem como desmanchar armas e armaduras para produzir materia-prima necessária para criar novos equipamentos (e de quebra desafogar o inventário).

Outra coisa que me agradou pra caramba foram as batalhas em si. É tudo absolutamente simplificado e acessível ao ponto de você só precisar usar o mouse para jogar (a única ocasião que te pede para usar o teclado é pra digitar o nome do seu grupo Sentai e do seu estúdio de TV nas opções). Com isso, com poucos cliques o jogador pode gerenciar seu quinteto movendo-os pelo cenário, atacando com golpes simples ou organizando ataques em conjunto e usando habilidades e técnicas de combate.

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A Cooperação inclusive é uma das habilidades mais bacanas do combate em Chroma Squad: ao clicar na estrelinha no canto da tela, o personagem selecionado vai assumir uma postura de preparação e reagirá às ações de outros heróis próximos: você pode usá-lo como impulso para se mover para pontos mais distantes do cenário de forma bem acrobática, em referência aos saltos e piruetas tão comuns nos seriados japoneses. Além disso, se você atacar um inimigo perto de um aliado em Cooperação, ele atacará ao mesmo tempo, permitindo desferir golpes múltiplos nesse mesmo inimigo. Faça isso com todos os seus cinco heróis e eles desferirão um golpe especial, chamado Chroma Power, que arranca bastante vida do alvo.

As batalhas com o robô gigante também são sensacionais! Clique pra atacar, clique no momento certo para defender e assista seu “Chromazord” socar a fuça de qualquer Kaiju que se coloque em seu caminho. Seu robô também pode receber melhores partes para sua couraça como capacetes, peitorais e braços/armas mais fortes, que lhe concedem habilidades e golpes especiais.

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Se Chroma Squad fosse só um RPG Estratégico comum ele já seria excelente mas, não satisfeitos, os desenvolvedores ainda entregam de lambuja a prova de que são mestres em mesclar ideias e conceitos de jogabilidade completamente distintos para oferecer uma experiência bem diferente do convencional.

Entre uma batalha e outra o jogador precisará gerenciar o estúdio de TV dos seus heróis, para que eles possam gravar novos episódios, renovar os equipamentos de gravação, melhorar a estrutura dos cenários e manter a grana entrando no caixa. A cada batalha vencida o jogador ganha dinheiro, que servirá para comprar novas câmeras e microfones, pagar o salário dos atores e fornecer-lhes um plano de saúde, melhorar a qualidade do fornecedor dos produtos na lojinha, expandir a estrutura do cenário e muitos outros detalhes bacanas que concedem bônus na hora do combate.

Também é possível contratar agências publicitárias para cuidar do marketing. Afinal, a propaganda é a alma do negócio, certo? Com a contratação de uma agência e o gasto de Pontos de Fã adquiridos nos combates, é possível ativar bônus que aumentam a quantidade de dinheiro e Pontos de Fã ganhos por episódio, entre vários outros benefícios direta ou indiretamente relacionados aos combates!

Tudo isso parece mais complicado do que realmente é (gostaria de não ser tão prolixo), mas na realidade é tudo muito simples e fácil de aprender e ao mesmo tempo complexo o suficiente para permitir que você se especialize na prática, te impondo bons desafios ao longo de suas 6 temporadas de 5 fases (ou episódios) cada. É a filosofia da Blizzard – easy to learn, hard to master – levada às últimas consequências!

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Mas tudo isso que falei até agora nem de longe é o mais legal de se ver neste jogo: todo o carinho que a gente percebe que os desenvolvedores tiveram não só com você que está jogando, mas com todos aqueles que confiaram na ideia e contribuíram com algum vintém no Kickstarter; toda essa atmosfera alegre de seriado infantil matinal transmitida por tudo que você vê, ouve e interage no jogo, desde os personagens incrivelmente carismáticos, passando pela tonelada de referências, clichês e zilhões de brincadeiras (velho, eu enfrentei o Tiger Robocop! =P)… Puta merda, até a sua espetacular trilha sonora que brinca com chiptunes como uma criança brinca com seu bonequinho de Ultraman, só pra te dar uma sensação muito bacana de aventura, comédia e recompensa ao longo da aventura!

Tudo isso e mais uma penca de qualidades que eu nem me lembro mais porque eu demorei uns bons 4 meses pra ter tempo de escrever este texto (desculpa, gente. Desculpa mesmo) contribui para uma experiência simplesmente sensacional!

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Percebo que existe uma espécie de “regra não escrita” no jornalismo de games que diz que as pessoas veem com bons olhos quando um jogo é reconhecido não pela nacionalidade de seus desenvolvedores, mas pelas suas próprias qualidades ou defeitos, pelo equilíbrio entre essas duas características e pela sua capacidade de desempenhar seu papel mais fundamental: divertir o jogador. Não há absolutamente nada de errado nisso, eu concordo com esse modo de pensar em gênero, número e grau e por isso acho muito foda o fato de o cenário independente brasileiro estar sendo cada vez mais respeitado dentro e fora do nosso país, com títulos de extrema qualidade competindo praticamente de igual pra igual com gigantes do mercado.

Não tenho de forma alguma a intenção de desmerecer os profissionais de jornalismo, mas como eu não sou jornalista (nem de games, nem de nada), acho que não faz nenhum mal eu me permitir demonstrar não somente a satisfação e o prazer que tive ao jogar Chroma Squad, como também o orgulho que sinto em ver um trabalho tão refinado e caprichado como este saindo do meu país e chamando a atenção do mundo, fazendo público e crítica esquecerem que se trata de um jogo brasileiro e reconhecendo-o como aquilo que realmente é: um jogo bem feito, carismático, muito bonito, com mecânicas inovadoras e inteligentes e, acima de tudo, extremamente simples e absurdamente divertido!

Então se por acaso você leitor(a) ainda tiver um pouco de desconfiança – talvez por ainda ter o pensamento antigo de que brasileiro só faz jogo ruim, talvez apenas por não gostar de jogos indies, talvez simplesmente por não estar acostumado com esse tipo de jogo – dê uma chance a Chroma Squad. Certamente este jogo te proporcionará a chance de reviver sua infância ou de conhecer esse fascinante universo dos super-heróis japoneses e, na pior das hipóteses, te divertirá pra caramba enquanto isso.

* – Nicolau era o nome do gatinho de estimação que eu tinha quando moleque… =P

CHROMA SQUAD

Plataforma avaliada: PC | Desenvolvedor: Behold Studios | Publisher: Nenhum | Gênero: RPG Estratégico/Simulação

Chroma Squad está disponível para Windows, Linux e Mac OS X. Versões para os consoles atuais estão sendo desenvolvidos pelo Behold Studios.

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Analista de Sistemas, desenvolvedor web e webdesigner freelancer. Sou viciado em videogames, amo literatura e os ensinamentos de Ben Parker formaram o meu caráter.