Soldiers of the Universe: uma guerra cheia de bugs

A Turquia é uma nação infelizmente famosa por seus diversos problemas: envolvimento constante em guerras, atentados terroristas, conflitos internos e descontentamentos com um polêmico chefe de Estado – entre diversos outros motivos – tornam o país pauta frequente nos noticiários. Para quem não costuma pesquisar a fundo sobre esse país, é fácil montar em nosso inconsciente coletivo o estereótipo de um país assolado pela guerra, esquecendo-se de que seus habitantes também podem ser capazes de criar, consumir e disseminar cultura e entretenimento, apesar das adversidades.

Por isso, do alto do meu preconceito, fiquei um bocado surpreso quando soube da existência da Rocwise Entertainment, um pequeno estúdio independente da Turquia, bem como de seu mais recente jogo: o first person shooter Soldiers of the Universe. Quando o Conquista recebeu a proposta para receber uma chave de imprensa e avaliar este jogo, vimos aí a oportunidade de dar uma visibilidade bacana pra esse pessoal.

Após jogar Soldiers of the Universe por alguns dias, pude constatar duas coisas. Uma, que é muito interessante a maneira como o ambiente e o contexto social, cultural e político que nos cerca influenciam grandemente na maneira como produzimos cultura. É por isso que aqui no Brasil temos uma recorrência maior de obras de ficção que têm os nossos problemas internos como temática. Filmes como 2 Coelhos e Tropa de Elite, além de quadrinhos como Pátria Armada e O Doutrinador exploram a corrupção política, a truculência e despreparo da força policial e a ditadura civil-militar como pano de fundo para suas histórias.

Não que uma empresa Turca só faça jogos de guerra por causa disso, obviamente. Mas tendo essa conjuntura em mente, é compreensível que a Rocwise tenha escolhido a guerra – um problema recorrente em seu país – como tema para seu jogo. Em Soldiers of the Universe, o jogador encarna o soldado Hakam, que foi selecionado para integrar uma organização secreta do governo denominada Akinci Warriors. Seu objetivo é liderar um grupo tático e viajar pelo país executando operações militares para eliminar terroristas e inimigos do Estado, ao mesmo tempo em que vinga a morte de seu pai, que era um membro antigo dessa mesma organização.

A outra constatação a que cheguei é que a Rocwise é uma empresa bem promissora, mas ainda tem um longo caminho pela frente para criar um game coeso, criativo e realmente divertido. Soldiers of the Universe infelizmente tem tantos, mas TANTOS problemas que me fizeram duvidar se esse jogo realmente estava pronto para ser lançado no mercado, a ponto de me fazer desistir de jogá-lo na metade de sua segunda fase!

Pra começar, temos esse roteiro descrito acima, um bocado raso e simplório. Embora eu compreenda que se trata de um estúdio novo e inexperiente (fundado em 2016 e tendo apenas dois games em seu portfólio, contando com esse), creio que dava pra eles terem criado algo mais criativo e minimamente interessante. A forma como tal história é contada no decorrer do jogo também é bastante fraca e não me chamou a atenção, o que denuncia a falta de experiência dos desenvolvedores com a elaboração de narrativa para jogos.

A parte artística de Soldiers of the Universe também deixa a desejar. Nota-se uma certa falta de identidade visual própria, a julgar pelo material promocional e pela tela de título do jogo, com visuais que lembram claramente os dos games Battlefield 3 e 4, da Electronic Arts (luzes e faiscas alaranjadas em ambiente acinzentado). Em um trecho do início do jogo, o protagonista conversa com o líder da organização governamental, em um laboratório de uma empresa chamada Armoya – que mais parece uma imitação das Indústrias Abstergo, de Assassin’s Creed.

Esse problema também se alastra ao longo das poucas fases que joguei, pobremente coloridas e sem vida, exagerando nos tons de sépia. Isso era bastante comum nos games de tiro com temática militar de poucos anos atrás e era um erro que não se cometeu mais de uns anos pra cá: basta ver o quão marcante é o visual de Spec Ops: The Line, por exemplo.

A falta de polimento e acabamento do jogo é ainda mais alarmante na parte técnica de Soldiers of the Universe: além de os controles serem simplórios (armas principal e secundária, arremesso de granadas, mira com o botão direito do mouse… o feijão-com-arroz desse tipo de jogo), a câmera atrapalha o jogador balançando excessivamente quando recebemos um tiro inimigo.

Também me frustrou a ausência quase completa de inteligência artificial em Soldiers of the Universe: justamente um jogo que trás 3 companheiros controlados pela CPU acaba não tendo o cuidado merecido nesse aspecto e os seus companheiros quase não te ajudam nos tiroteios. Em quase todo o tempo eu era obrigado a dar cabo dos inimigos sozinho, pois os outros bonecos ficavam parados escondidos em algum canto, sem atirar, nem avançar pelo campo de batalha.

Soldiers of the Universe conta com multiplayer cooperativo local e online, o que talvez ajude a amenizar esse problema (mas infelizmente não tive chance de testar este modo de jogo).

Sério, o que danado esse boneco tá fazendo sentado aí?!

Os inimigos do jogo também têm uma IA quase nula e, ao menos no trecho que eu joguei, não passam de “alvos imóveis”: eles se limitam tão somente a atirar incessantemente por vários segundos, parar, abaixar-se (caso estejam perto de alguma proteção), recarregar sua arma, levantar e voltar a atirar. Eles não se movem pelo cenário, não tentam se esconder dos meus tiros, nem ao menos fingem que estão com medo de ser alvejados. É como se eu estivesse passeando pelo percurso de um clube de tiro, atirando naqueles alvos de papel!

Como se todos esses problemas não bastassem, temos o level design pobre: as duas fases que joguei foram modeladas de uma forma bastante simplória, com uma quantidade muito grande de paredes invisíveis e com brechas no cenário nos quais dava pra ver nitidamente quando a modelagem do jogo acabava e dava pra ver a skybox gerada pelo engine do jogo. O sistema de colisão também era bem inconsistente: no final da primeira fase, quando o helicóptero de resgate pousa para que possamos subir nele e passar para a fase seguinte, eu ficava atravessando o helicóptero, como se meu boneco fosse um “fantasma”.

E tudo isso rodando de maneira relativamente lenta e ligeiramente instável, mesmo com os gráficos ajustados no Very Low e a resolução de tela reduzida, já que o jogo foi desenvolvido com o Unreal Engine 4 (uma ferramenta que sempre exige um hardware mais potente). Mesmo títulos como Street Fighter V conseguem rodar a 60 quadros por segundo em meu notebook com processador Core i5, 8 GB de memória e 2 GB de vídeo dedicado, mas os engasgos que notei durante as partidas mostram que Soldiers of the Universe carece de muito polimento e ajustes em seu código.

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Eu quero acreditar que entendo porque o pessoal da Rocwise obteve esse resultado: uma das filosofias vigentes na comunidade de desenvolvimento independente é a filosofia fail faster, na qual os criadores são incentivados a criar projetos pequenos, curtos e de escopo reduzido. Assim os projetos ganham vida rapidamente e os criadores podem aprender com seus erros e acertos de forma mais ágil. Essa pra mim é a única explicação para Soldiers of the Universe ter sido lançado com tantos problemas! Afinal, de acordo com o site oficial e com declarações dadas ao público nas notícias do Steam, este jogo levou míseros NOVE MESES para ser desenvolvido, sendo dois meses de Early Access (seu lançamento em definitivo foi em novembro desse ano).

Por essa razão, e pela tentativa válida de usar o contexto sociopolítico do seu país de origem como pano de fundo para este jogo, acredito que a Rocwise Entertainment é uma equipe com bastante potencial e que pode vir a ser muito bem-sucedida no futuro. Espero que a repercussão de Soldiers of the Universe sirva como uma boa fonte de feedback e motivo de sucesso para seus próximos projetos.

Já do ponto de vista do público geral, talvez seja uma boa ideia esperar mais alguns meses, conferir se a Rocwise vai continuar consertando e aprimorando esse jogo e talvez comprá-lo em alguma promoção generosa. Soldiers of the Universe poderia ser uma grande opção para os amantes do tiro em primeira pessoa, mas a impressão que ele me deixou é que seu lançamento foi prematuro e precipitado.

SOLDIERS OF THE UNIVERSE

Plataforma avaliada: PC/Windows | Desenvolvedor: Rocwise Entertainment | Publisher: Nenhum | Gênero(s): Tiro em Primeira Pessoa

Devido aos inúmeros problemas apresentados, o autor da resenha jogou apenas parte da campanha principal. O modo multiplayer não foi testado.

Esta resenha foi elaborada com uma cópia do jogo gentilmente cedida pelos desenvolvedores.

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Arte de fundo criada por Nataly Al-Sayf
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