Esse negócio de polarização tá acabando com tudo!

A situação política, econômica e social no Brasil talvez nunca tenha estado tão triste como agora. Obscurantismo, brigas ideológicas, discursos de ódio, a política sendo tratada como mera partida de futebol com a população dividida em ~lados~, os antigos medos da época da Guerra Fria retornando de forma ainda mais irracional, questões sociais importantes sendo tratadas com desprezo, protestos e mais protestos, os políticos filhos da puta de sempre se beneficiando de tudo isso para manter o status quo…

Toda essa situação deixa os ânimos das pessoas bastante abalados. É cada vez mais difícil conversar sobre determinados assuntos sem que a discussão descambe pro ataque verbal, para dizer o mínimo. Na internet isso é ainda pior, dadas as bolhas e câmaras de eco a que somos submetidos pelos algoritmos das redes sociais.

Você, que veio visitar este blog, deve estar se perguntando porque diabos eu comecei a falar sobre esse assunto, já que o Conquista é um blog sobre games e nunca nos preocupamos a falar sobre isso antes. Bom, deixa eu contar o que rolou de ontem pra cá que você vai entender. Segura na minha mão e bora!

Battlefield V anunciado, yay! \o/

Bom, tudo começou com a transmissão da EA veiculada na noite de ontem (23/05), que finalmente anunciou oficialmente, mostrou uma penca de detalhes maneiros e deu a data de lançamento de Battlefield V (16/10 para a versão Deluxe, 19/10 para a edição básica).

A apresentação foi massa! Assiste aí no vídeo abaixo, caso tenha perdido (pode ser necessário logar com sua conta do Google para confirmar idade)!

Em meio ao hype gostoso que sempre rola durante anúncios como esse (especialmente às vésperas da E3), surgiu um burburinho de uma galera insatisfeita com o que viu no empolgante trailer de revelação. Ao observar esse ocorrido, notei que as reclamações estavam rolando por dois motivos principais: um deles era a simples presença de mulheres guerreando no jogo, sendo que uma delas será protagonista ao lado do personagem do jogador. O outro motivo era a presença de uma tal “garra cibernética steampunk”, usada justamente pela própria mulher já mencionada.

Quando esse burburinho começou, o que chegou a mim primeiro na timeline do Twitter foi a primeira reclamação, a de que existem mulheres na linha de frente em um jogo situado na Segunda Guerra Mundial. Segundo essa parcela dos reclamões, Battlefield V não é historicamente preciso porque as mulheres nunca teriam lutado como soldados, sendo relegadas a trabalhos auxiliares, enquanto os homens marchavam em ambos os lados do conflito (o que é um baita engano!).

Mulheres e garras. Hein?!?!?!

Motivado a esclarecer esse povo que aparentemente só tirava nota baixa nas aulas de História (e provando que mesmo eu sou uma pessoa falha e também cometo o erro de partir pra agressão verbal nas redes sociais), eu publiquei o seguinte tweet:

Tweet com argumento agressivo do @giancarlozero

Sim, admito. Eu realmente poderia ter mandado essa mensagem de um jeito mais camarada (clique na imagem para ver o tweet).

Truculência minha à parte, notem que em nenhum momento eu me referi à reclamação sobre a tal “garra cibernética” e sim tão somente à reclamação sobre a presença feminina no jogo. Inclusive minha crítica é plenamente corroborada pela mídia especializada, vide este texto do Kotaku publicado na ocasião, com alguns exemplos de pessoas que estavam demonstrando raiva e ódio ao vindouro jogo só porque vai ter mulher nele.

Do alto de minha ingenuidade, achei que eu seria entendido corretamente por quem viu esse meu tweet passeando pela timeline, mas logo eu me dei conta de que estava errado, pois algumas pessoas resolveram tentar contra-argumentar o meu ponto e… bom… talvez elas não tivessem prestado a devida atenção ao trailer do Battlefield V.

Sim, é muito provável que eles simplesmente não viram com calma o trailer, ou apenas “viram o que queriam ver”. É a única explicação para reações como esta:

Tweet com argumento equivocado do @_Sa_lim

Clique na imagem para ver o tweet.

Inclusive vindo de gente aparentemente mais ponderada, mas que também se equivocou em seus argumentos ao reagir ao meu tweet:

Tweet com argumento equivocado do @ze_da_roca

Clique na imagem para ver o tweet.

Até mesmo gente considerada de alto gabarito na internet, conhecida por ter um conhecimento louvável sobre Segunda Guerra Mundial, perdeu a chance de ficar calada!

Tweet com argumento equivocado do @Cardoso

Clique na imagem para ver o tweet.

Tá percebendo a problemática? Gente simplesmente apressada em seus contra-argumentos, se equivocando e achando que eu critiquei uma coisa, quando na verdade eu critiquei outra. E ainda por cima usando “garra cibernética”, “imprecisão histórica” e discursos similares como justificativa para sua reação exacerbada sobre o trailer apresentado pela EA, o que não faz sentido nenhum!

Agora imaginem aí a cara desse povo quando finalmente perceberem que a “garra cibernética steampunk Mad Max num-sei-das-quantas” não é garra coisa nenhuma e sim uma prótese real, usada durante a Segunda Guerra Mundial, para devolver a mobilidade às vítimas militares e civis dos combates!

Próteses médicas na Segunda Guerra Mundial

Quando a gente pensa em próteses para amputados, o senso comum nos faz lembrar de dispositivos rudimentares, rígidos, com praticamente nenhuma mobilidade e que mais parecem um arremedo do membro perdido do usuário. Dispositivos mega avançados, com movimentos finos e suaves reproduzidos com precisão e tecnologia de ponta infelizmente não são acessíveis a todo mundo e, mesmo hoje em dia, às vezes ainda parecem coisa de ficção científica… ou coisa de videogame mesmo!

É por isso que muita gente se surpreende e estranha quando vê uma pessoa com um membro mecânico fazendo coisas que pensamos que não seriam capazes de fazer, como dirigir, manipular pequenos objetos… ou puxar o gatilho de uma arma. Iniciativas recentes, como a confecção de próteses via impressão 3D e distribuição pelo SUS colaboram para diminuir um pouco essa percepção na cabeça das pessoas, mas a julgar pelo que rolou no Twitter ontem, isso ainda não é o bastante.

Hoje mais cedo eu resolvi reassistir ao trailer do Battlefield V e pesquisar sobre iniciativas médicas realizadas durante a Segunda Guerra Mundial para ajudar vítimas amputadas. Eis, nas linhas abaixo, o resultado do que consegui encontrar.

Exemplares de braços Hosmer-Dorrance, dotados de ganchos preênseis. Foto por Andres Serrano. Fonte: Wired.

Exemplares de braços Hosmer-Dorrance, dotados de ganchos preênseis. Foto por Andres Serrano. Fonte: Wired.

A imagem acima é a de alguns exemplares de braços mecânicos dotados de ganchos preênseis, chamados de braços Hosmer-Dorrance. O primeiro dispositivo desse tipo foi criado por David Dorrance em 1909, após perder uma de suas mãos em um acidente de trabalho em uma serraria. Ele é dotado de cabos de aço que se conectam a pontos-chave do membro como se fossem tendões, permitindo que o usuário consiga mexer o braço e os ganchos para alcançar e agarrar determinados objetos. Os movimentos são ativados graças à força dos músculos remanescentes da amputação do braço ou da mão.

É uma peça médica tão eficiente que é utilizada até hoje! É é claro que seu uso foi bastante difundido na época da guerra entre os Aliados e o Eixo Nazista, oferecendo mobilidade às vítimas dos massacres.

Fotos de época de braços Hosmer-Dorrance. Fonte: http://history.amedd.army.mil (infelizmente fora do ar. Por esse motivo, não consegui esta foto em uma resolução maior).

Fotos de época de braços Hosmer-Dorrance. Fonte: http://history.amedd.army.mil (infelizmente fora do ar. Por esse motivo, não consegui esta foto em uma resolução maior).

O vídeo a seguir, criado e divulgado pelo Ministério da informação Britânico da época, é fascinante! Ele demonstra o modo de funcionamento de diversos outros tipos de próteses para pessoas amputadas e mostra a capacidade desses dispositivos de devolver a mobilidade a vítimas da guerra, permitindo que essas pessoas voltassem a trabalhar, a executar pequenas tarefas diárias e tenham uma vida digna, na medida do possível.

Agora reparem na semelhança entre os braços Hosmer-Dorrance e o que vemos na mão da mulher que aparece no trailer de Battlefield V:

Battlefield V: prótese usada na Segunda Guerra Mundial no braço de uma mulher personagem do jogo.

“Não condiz com a realidade da época”, você dizia? Sério?

Pois é. O que meia-dúzia de desavisados achava que era uma “garra estilão cyberpunk” era, na verdade, uma prótese comum existente na vida real que já existia na época da Segunda Guerra Mundial. Ao meu ver, ao menos nesse aspecto, a precisão e fidelidade históricas em Battlefield V estão indubitavelmente garantidas.

Ânimos exacerbados

Enquanto reunia material para este artigo, eu fiquei pensando sobre o ocorrido da noite de ontem no Twitter e em como estamos sendo tão negativamente afetados pela situação socioeconômica e sociopolítica do Brasil em muitos, senão todos os aspectos de nossas vidas, em maior ou em menor grau. E eu sinceramente não consigo deixar de acreditar que as coisas seriam bem diferentes se estivéssemos vivendo em um período de bonança e estabilidade.

Graças ao contexto atual, estamos todos (sim, eu me incluo nisso) muito sensíveis na hora de conversar e também muito inclinados a escolher um lado, a defender seu lado com unhas e dentes e a atacar quem quer que discorde de nossos argumentos, mesmo quando não há a mínima necessidade desse extremismo todo.

As consequências desse verdadeiro caldeirão em ebulição podem variar bastante mas são todas bastante desagradáveis, indo desde consequências graves à situações ridículas como a que exponho nesse meu texto – que poderiam ser evitadas com míseros cinco segundos de Google e uma boa dose de bom senso.

Eu também quero destacar o já exaustivamente discutido problema do quão machista e sexista a comunidade gamer é capaz de ser, problema este evidenciado pela reação da parcela de haters que execrou a presença das personagens femininas neste novo episódio da franquia Battlefield – que, novamente lembrando, é uma galera diferente da que reclamou da suposta “garra ciberpunk”, e que foi o único alvo da minha crítica naquele fatídico tweet que tentaram rebater com argumentos falhos.

Se você é um desses haters, pode me rotular como “social justice warrior” o quanto quiser, mas antes disso responda para si mesmo com sinceridade: você teria essa mesma reação se fosse um homem ali na cena de ação, com “garra cibernética” e tudo?

Personagens do jogo Battlefield V.

Não vamos brigar! Vamos jogar!

Se há uma lição tirada desse ocorrido e que todo mundo precisa aprender (incluindo este que vos digita), é que precisamos ser muito pacientes e parar de brigar por bobagens. Aliás, precisamos parar de brigar até mesmo por coisas mais graves, mas que não nos acrescentam em nada e só nos tornam mais isolados uns dos outros.

Em vez de apontar o dedo e chamar o cara do lado de “coxinha” ou de “petralha”, tente conversar amigavelmente e ver se ambos chegam a um denominador comum. Ou pelo menos discordem de maneira respeitosa. Em vez de acusar alguém de “alimentar uma narrativa”, tente entender que pessoas que lutam por causas sociais querem o bem não só das minorias, mas de todo mundo de uma forma geral. E, como todo ser humano, essas pessoas podem cometer erros, ainda que tenham as melhores das intenções.

Com relação a nós como jogadores, em vez de ter um comportamento agressivo com relação a um jogo de videogame só porque ele te desagradou de alguma maneira, pare e pense se o motivo da sua revolta faz mesmo algum sentido. Em vez de ficar revoltado porque a representatividade está cada vez mais em evidência nos games que gostamos de jogar, tente se colocar no lugar da outra pessoa! Tente imaginar como esse simples gesto de uma desenvolvedora, de criar e apresentar aos jogadores uma protagonista mulher – ou negro(a), ou gordo(a), ou membro da comunidade LGBT, ou portador(a) de deficiência física/necessidades especiais ou quem quer que seja – pode trazer muita alegria para estas pessoas e tornar os games ainda mais diversos e fascinantes do que eles já são!

A comunidade gamer já tem sua cota de problemas desde que videogame é videogame, seja por incompreensão de quem não manja deste hobby, seja por culpa nossa. E nosso comportamento tóxico e o contexto altamente polarizado em que vivemos hoje em nosso país não nos ajuda em nada a mudar esse quadro.

[Fontes e referências: Portal iG, Wired, VG 24/7, Kotaku, Wikipedia, PeriscopeFilm (canal do YouTube)
e materiais diversos obtidos a partir de pesquisas no Google e no Google Imagens.]

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