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A assombrosa excelência de The Last of Us Part II

Após anos de espera, enfim acompanhamos a continuação da jornada de Ellie em um mundo dominado pelo Cordyceps... e ficamos impressionados.

Ao contrário da maioria, quando foi anunciado que a Naughty Dog trabalhava em um segundo The Last of Us eu me questionei se havia necessidade disso. Eu pessoalmente acredito que a genialidade de algumas obras de entretenimento só atinge a perfeição quando conseguem entregar um ciclo fechado, sem muita expansão. É algo pessoal: as obras que eu mais gosto são assim, únicas… mas dei o benefício da dúvida. Afinal, o que de tão importante Neil Druckmann e seus amigos ainda tinham pra dizer que poderia completar ou ser mais grandioso que TLOU e Left Behind?

É muita coragem, depois de um jogo de tanto sucesso e um esplendoroso Uncharted 4 e Lost Legacy, voltar na sua história mais premiada pra talvez tocar em pontos que pro grande público poderiam ser considerados sagrados. Conforme foram surgindo as novas publicidades e vídeos, eu ia ficando cada vez mais incomodado, mesmo em vídeos de gameplay. Afinal, por motivos óbvios, os rumos eram bem obscuros.

Finalmente com o jogo na mão

As coisas continuam terrivelmente difíceis nesse mundo inóspito

Com a oportunidade de finalmente pôr as mãos em The Last of Us Part II, todas as minhas dúvidas iam lentamente sendo respondidas. O ritmo escolhido por Neil Druckman aqui foi bem mais cinematográfico do que antes, com um uso nada moderado de flashbacks, alguns pontos indo direto ao assunto e uma não-linearidade no storytelling que me causaram um efeito de curiosidade constante enquanto transcorria a gameplay, como se um novelo de lã fosse sendo desenrolado lentamente diante dos meus olhos. Mas o que mais me impressionou foi como foi dada uma resposta aos críticos desses novos games, que dizem que a Naughty Dog faz jogos “para apenas assistir, não para jogar”.

De forma idêntica ao primeiro game, temos aqui uma jogabilidade linear no sentido de ir com o personagem de um ponto A a um ponto B, com a estrutura de jogo composta por áreas com exploração, partes scriptadas e cinematics. Até aí você pode entender que é um game comum da Naughty Dog, com poucas novidades. O que vem de diferente na estrutura aqui é que este jogo, mais do que em todas as obras anteriores, está 80% do tempo na mão do jogador. São longos segmentos jogáveis beirando em algumas boas horas sem interromper o jogador por cinematics ou scripts.

Também de forma similar ao primeiro The Last of Us, o foco da jogabilidade é o stealth e a exploração. A diferença é que, por se tratar de um TLOU para a nova geração, tudo o que o primeiro game podia trazer de experiencia foi aqui lançado numa escala absurda e surreal! Sempre que você visita alguma área há uma parte toda dedicada à exploração, com várias salas e quebra-cabeças para destrancar portas. Similar ao que pudemos ver em The Legend of Zelda: Breath of the Wild, optaram aqui por uma abordagem estilo “quanto maior for a curiosidade do jogador, maior será recompensa”, seja essa recompensa na forma de itens pra craft e upgrades de armas, seja na forma de melhorias para o personagem com pílulas e manuais que liberam árvores de habilidades totalmente novas.

Claro que também tem muito lore pra ser descoberto, e meu amigo… HAJA papelzinho pra ler espalhado por esse mundo pós apocalíptico! Existem segmentos de história inteiros dedicados a personagens que só vemos pelos escritos.

Atirar ainda é a pior opção.

Para você ter uma boa noção, algumas áreas disponíveis pra exploração ganham até um mapa próprio para o jogador se familiarizar melhor, devido ao tamanho da região. A Naughty Dog veio desenvolvendo aos poucos nos Uncharteds essa habilidade de produzir um jogo “on rails” com pequenas seções quase de mundo aberto, mas aqui eles decidiram que era hora de elevar isso a níveis megalomaníacos.

Outra herança de seus outros games são os segmentos de ação frenética absurdos e de tirar o folego! Esses momentos são sempre muito bem-vindos, fazendo o jogo brilhar e se tornar cada vez mais emocionante.

Hora do combate

O combate novamente trás pouca diferença do primeiro game, mas cresceu em qualidade: com lutas corporais com possibilidade de esquivas e contra-ataques no stealth, o jogo cresceu muito nesse aspecto. Optaram por importar o stealth de ambiente com grama alta e arbustos e a possibilidade de deitar no chão que vimos em Metal Gear Solid V: Phantom Pain e na franquia Sniper Elite. Isso tornou a possibilidade de resolver uma situação de conflito sem combates mais viável, já que, novamente como no primeiro, a parte de shooter é uma bela – e proposital – porcaria: mesmo com upgrades o personagem continua com problema na mão e dificuldade de mira, seja a longa ou a curta distância. Isso sem contar com os clássicos tijolos e garrafas pra atrair ou conduzir o inimigo, e também a possibilidade de contar com um arco e flecha e silenciadores pra garantir o abate sem alertar um bando maior.

Mas não se anime muito, amiguinho(a)! Se te deram mais poder de stealth (com inclusive, veja só que delícia, uma bem-vinda faca indestrutível), a IA dos inimigos está pra lá de azeitada. Os infectados pouco tiveram evolução ou diferenciação, ainda sendo as mesmas evoluções do estágio da infecção pelo fungo Cordyceps. Corredores que, se forem acionados, podem se juntar em bandos de 3 ou 4 e produzir um literal linchamento da Ellie; Estaladores, que aqui sofreram um downgrade mas ainda assim causam dando elevado e possuem agarrões perigosíssimos, entre outras evoluções não tão diferentes, variando em infectados maiores com mais resistência a dano e que atacam à distancia ou em área, ou infectados que não são possíveis de serem facilmente rastreados, sendo esses os maiores responsáveis por provocar sustos no jogador.

As possibilidades de confronto melhoraram bastante em The Last of Us Part II

Porém, quando o combate é contra humanos, o jogo brilha no maior sentido da palavra: tropas podem ter armas pesadas, armas de dano à distancia cujo agressor vai se distanciar e esconder, soldados terão arma corpo-a-corpo pra causar grande dano e incapacitação, e rastreadores que usam cães farejadores que são a maior pedra no sapato que eu já tive que lidar em um jogo de stealth. Os cachorros conseguem sentir seu cheiro e achar o seu rastro, podendo te achar facilmente, causar danos fatais e, claro, alertar todo o esquadrão que facilmente pode te exterminar. A IA trabalha de forma bem imprevisível, fazendo com que a ação de se esgueirar entre caixotes e coberturas seja às vezes bastante arriscada, pois o inimigo pode simplesmente desistir de ir pro lado que estava indo e começar a vasculhar exatamente onde você está.

Outra novidade aqui é a pessoalidade dos NPCs. Todos se chamam por nome, podendo até ter reações emocionais quando encontram um colega morto, desde maior desolação e desmotivação a maior agressividade na procura do intruso.

Um jogo para todos

The Last of Us Part II oferece uma grande gama de configurações de acessibilidade

Como já merecidamente exaltado por aí, um grande diferencial de The Last of Us Part II (que aliás poderia se tornar um padrão na indústria) é que este jogo completamente customizável com enormes opções de acessibilidade, dando oportunidade para que jogadores de necessidades especiais de praticamente qualquer natureza consigam experienciar o jogo da sua melhor maneira.

Algo que também chamou muito a atenção foi descobrir as configurações de dificuldade, que permitem todo tipo de customização, desde nível de inteligência da IA até a disponibilidade de recursos, entre diversas outras possibilidades.

Tá, mas e a parte técnica?

A sensação é de já estar em outra geração.

Claro que você deve estar se perguntando sobre a parte técnica. E meu amigo, se prepare! O comum downgrade gráfico em trailers pra gameplay aqui simplesmente não existe. Diversos segmentos receberam um upgrade técnico com performance de entrega sem queda de frames perceptíveis. Paisagens e cenários com um nível de fotorrealismo doentio e um preocupante fetiche por assets inéditos em praticamente toda área de jogo! Uma variedade de móveis e ambientes absurda! Salas com equipamentos, decorações, fungos, totalmente diferentes que quase nunca se repetem. Uma megalomania que bate de frente ou talvez até supere Red Dead Redemption 2, mas como é sabido, ao custo de muito crunch e desrespeito a direitos trabalhistas.

A sensação clara é que já estamos experimentando um jogo de PlayStation 5: é impossível olhar para Uncharted 4, Uncharted: Lost Legacy, Horizon: Zero Dawn e God of War e achar que são títulos da mesma geração que The Last of Us Part II. A diferença de qualidade de iluminação, ambientes com neve, chuva, sol, vidros, água, vegetação, bem como o level design saltam aos olhos de uma maneira chocante! É basicamente um recado da Naughty Dog dizendo: “somos excelentes no que fazemos”.

E a história?

É claro que eu não vou te dar spoiler da história, mas o que posso te dizer é que os detalhes vazados antes do lançamento do jogo são irrelevantes e em nada acrescentam ou tiram do âmago da história. A forma como foram desenrolando os eventos e trazendo novos fatos e acontecimentos de maneira vagarosa e gradual, contextualizou de maneira magistral diversas questões e assuntos abordados: as motivações de cada personagem, as camadas emocionais de suas ações e decisões… está tudo lá.

A aposta foi numa história ainda mais adulta do que vimos no primeiro game, com conclusões, respostas e aberturas de questões bem mais numerosas e ainda mais profundas do que no jogo anterior. O clima de “road movie” novamente aparece aqui, tornando a jornada prazerosa e intrigante.

A melhor critica geral que posso fazer é que terminei o jogo com bastante curiosidade e exploração dos mais diversos ambientes em pouco mais de 26 horas ininterruptas, algo que sinceramente nunca me vi motivado a fazer antes.

A imprevisibilidade dos acontecimentos me deixou atônito e, na minha opinião, elevou o nível do jogo ao mais alto patamar. Talvez o meu pessimismo e a falta de expectativa inicial tenham sido recompensados por este jogo nos contar uma história que bem diferente do usual.

The Last of Us Part II é um jogo sobre emoções a flor da pele, clima pesado e muita tensão, que do meu ponto de vista talvez não agrade a uma maioria de fãs numa primeira experimentação, mas que, com o tempo, possa vir a ter suas decisões narrativas compreendidas e ainda mais amadas por quem teve a oportunidade de jogar este jogo do que a parte um.

THE LAST OF US PART II

Plataforma avaliada: PlayStation 4 | Desenvolvedor: Naughty Dog | Publisher: Sony Interactive Entertainment| Gênero(s): Ação, Aventura, Sobrevivência

The Last of Us Part II atualmente está disponível para PlayStation 4.

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Analista de Fraudes, apaixonado por games, futebol, assuntos televisivos, podcasts, corinthiano e pai de menina. Gosto de games de ação e mais intimistas. O que busco é sempre um bom entretenimento que possa gerar uma boa discussão. Sou eclético ao extremo, fanático pela série Assassins Creed, FIFA e Red Dead Redemption. Sempre estou disposto a experimentar um indie obscuro.