Destiny e a síndrome do potencial desperdiçado

Destiny e a síndrome do potencial desperdiçado

Sempre tento não entrar no hype de algum lançamento, mas às vezes é bem complicado conseguir isso. Difícil não se empolgar com um game que apresenta gráficos sensacionais, belas paisagens e uma jogabilidade parecida com Borderlands 2 (um dos grandes jogos da geração passada). Inclusive, durante muito tempo eu afirmei que Destiny era um Borderlands com gráficos mais realistas. Bom, depois de várias e várias horas de jogo, cheguei à conclusão de que Destiny é a primeira grande decepção da nova geração.

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O game começa bem, no meio de uma Rússia devastada por algum tipo de guerra em um futuro bem distante. O nosso personagem surge graças a um robozinho chamado de Fantasma, que aqui faz as vezes do carismático ClapTrap de Borderlands, porém sem metade do carisma dele. Começamos sem nenhuma arma e logo somos obrigados a fugir e conseguir algum armamento para nos defender, como também acontece em Borderlands. E vocês perceberam, em apenas dois parágrafos, a quantidade de vezes que citei Borderlands em uma resenha de Destiny? Pois é, enquanto jogava o mais recente game da Bungie, eu só conseguia pensar “isso aqui tá me dando vontade de voltar a jogar Borderlands”. Tem alguma coisa errada quando um game te faz ter vontade de largá-lo para voltar a um jogo mais antigo. Sombras de Mordor tem um sistema igual o de Batman Arkham e em nenhum momento eu quis parar tudo para jogar o game do morcego.

Mas estou divagando, voltemos ao Destiny. Logo após a primeira dungeon, somos apresentados à última cidade da Terra e que serve de ponto de encontro com outros jogadores. Lá descobrimos que a humanidade colonizou vários planetas, mas uma força maligna acabou surgindo e arrasou as colônias, assim como a própria Terra. Todos os planetas agora são habitados por hordas de inimigos divididos em quatro raças: Decaídos, Vex, Cabais e Colméia. E basicamente isso é tudo que dá pra saber sobre esses inimigos, já que pouca coisa é revelada a respeito deles e de seus objetivos. Este é o problema fundamental de Destiny: as boas ideias estão ali para serem aprofundadas, mas os produtores preferiram abordar tudo superficialmente. Quando você acha que a história do jogo vai esquentar, ele simplesmente acaba e você pensa “ué, zerei o jogo?”. O carisma que sobra em Borderlands (olha ele aí de novo) veio faltando em Destiny. Enquanto o jogo da 2K Games explodia de NPCs e antagonistas malucos e bizarros, a obra da Bungie te joga em um mundo para enfrentar inimigos que você nem sabe muito bem porque está enfrentando.

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Claro que a falta de NPCs aliados pode ser explicada pelo fato de que os tais aliados serão os outros jogadores que estiverem online no momento. O problema é que isso também acabou não funcionando como se esperava na versão final do game. Quando joguei a versão beta, o mundo de Destiny era densamente habitado, você estava lá realizando sua missão e aparecia mais umas duas (ou três ou quatro) pessoas fazendo uma missão que passava pelo mesmo local e vocês se ajudavam. Depois cada um seguia com sua missão e encontrava outros jogadores mais à frente e isso era sensacional! O problema é que essa superpopulação só aconteceu mesmo na versão beta, quando todos estavam curiosos sobre o game e tinham apenas aquele pequeno período pra testá-lo. Na versão final acabou ficando um pouco raro cruzar com alguém a caminho de alguma missão. A história do jogo é muito curta, com poucas missões principais, então é provável que a maioria dos jogadores esteja no multiplayer e não vagando pelo mundo.

E por falar no multiplayer, ele é extremamente desbalanceado. Não sou fã do multiplayer competitivo, mas quando comprei Destiny queria experimentar tudo que o jogo tinha a oferecer. Então, completei algumas missões principais e lá fui eu para o multiplayer com o meu singelo personagem de nível cinco. E eis que o jogo simplesmente me atirou em uma partida com jogadores já no nível 20 (o máximo permitido em circunstâncias normais). Além de ser muito difícil matar alguém no nível em que eu estava, bastava um tiro de qualquer outro jogador para que eu morresse. Mesmo assim eu me diverti e resolvi tentar outra partida. Dessa vez, tinha pelo menos mais dois jogadores em níveis baixos, um no nível quatro e outro no nível sete. Pra minha surpresa, o jogo fez questão de colocar nós três na mesma equipe. Será que é muito difícil programar algum código que deixe o jogo balanceado? Acho que não, pois joguei outros games multiplayer e nunca encontrei situação parecida.

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Até mesmo os poderes das classes são desbalanceados. Jogando com o Sayron, ele ficou impressionado com os poderes destrutivos do meu personagem, mesmo eu estando uns três níveis abaixo do personagem dele. O sistema de recompensa também é bastante bagunçado e parece não haver critério algum. Às vezes matamos uma porrada de inimigos e recebemos recompensas bem pequenas, enquanto outro integrante do grupo que ficou apenas morrendo e matou umas duas criaturas consegue boas armas e armaduras. Quando jogamos alguma partida de assalto com pessoas aleatórias na internet é possível entrar já no final da partida e, mesmo assim, ganhar boas recompensas. O que parece é que as recompensas são simplesmente aleatórias, não importando a sua dedicação em ser o melhor da equipe. E não se espante se, ao terminar um assalto, o jogo te colocar pra encarar o mesmo assalto na sequência.

Repetição, aliás, parece ser a palavra de ordem de Destiny. Com poucas missões, tanto principais quando de assalto, o jogo te obriga a repetir sempre as mesmas fases se quiser evoluir além do nível 20. Isso porque só é possível subir além desse nível utilizando equipamentos especiais que, por sua vez, são conseguidos apenas completando as mesmas missões de sempre, porém com nível de dificuldade aumentado. Sem contar os outros trocentos requisitos exigidos para poder utilizar certos equipamentos. E como são completados estes requisitos? Isso mesmo, repetindo as missões novamente. O pior é que as missões são todas parecidas entre si: vá do ponto A ao ponto B enfrentando hordas de inimigos e enfrente um chefe de fase que possui BILHÕES de pontos de vida. No lugar de se sentir recompensado, a sensação ao derrotar alguns chefes é de alívio por não precisar começar tudo de novo. Mesmo sendo divertido completar as missões com os amigos, você começa a ficar meio de saco cheio de passar pelas mesmas situações eternamente.

Destiny não sabe aproveitar nem os seus pontos positivos. Os gráficos de todos os planetas são muito bonitos, passando pela Rússia arrasada na Terra até as selvas de Vênus, porém pouca coisa pode ser acessada quando caminhamos pelo mapa. Existem várias construções das antigas colônias que são inalcançáveis para o jogador. Quando tentamos chegar em algum desses pontos, aparece uma mensagem na tela de que estamos nos distanciando do objetivo e uma contagem regressiva para que voltemos ao caminho indicado. Caso o jogador não volte por vontade própria, o personagem morre e aparece em algum ponto de respawn. A promessa de um universo sensacional a ser explorado com seus amigos não foi cumprida. Sem contar que a jogabilidade não muda em nada quando mudamos de planeta. Não importa se estamos na Terra ou na lua, por exemplo, a gravidade e a altura dos nossos saltos continuam os mesmos. É triste ver tantas possibilidades de jogabilidade inovadora serem desperdiçadas.

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Apesar de tudo que eu escrevi até aqui, Destiny não é um jogo ruim, mas também não é sensacional como nos fizeram acreditar. Ele ainda possui uma boa jogabilidade e é possível se divertir durante algumas boas semanas com ele, principalmente com um grupo de amigos. Mesmo com todas as minhas reclamações sobre o jogo eu consegui chegar ao nível 25 e ainda hoje dou uma jogada ou outra. Ele apenas não é espetacular como prometia ser e tem um universo que parece ser muito interessante, mas que infelizmente não foi bem explorado pelos seus realizadores. Agora deixa eu ir lá jogar um pouco de Borderlands 2.

DESTINY

Plataforma avaliada: PlayStation 4 | Desenvolvedora: Bungie | Publisher: Activision, Sony (para a versão para PS4 e PS3) | Gênero: RPG de Ação, Tiro em Primeira Pessoa | Multiplayer? Sim, online massivo

Destiny está disponível para PS3, PS4, Xbox 360 e Xbox One. Não há versão para PC.

Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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