A valiosa lição de Undertale

A valiosa lição de Undertale

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Não é todo dia que encontramos jogos que nos fazem sentir sensações e sentimentos diferentes da diversão, da tensão, da adrenalina, do medo ou quaisquer outros que nós já tenhamos sentido várias vezes ao longo de nossas vidas como jogadores de videogame. Apesar de a ascensão dos jogos independentes trazerem um novo sopro de vida a essa indústria vital, mesmo entre eles não são todos os que se destacam em oferecer uma experiência diferente do comum.

Não que isso seja obrigatório, é claro. Eu não acho que os games precisem deixar de lado suas características lúdicas intrínsecas para serem consideradas expressões artísticas (e é por esse motivo que torço o nariz para Dear Esther… mas isso é assunto pra outro dia) e gosto muito quando um jogo consegue me deixar satisfeito apenas com o pouco que oferece. Mas é sempre surpreendente como de tempos em tempos alguém consegue desenvolver algo que supera as limitações desse tipo de mídia, fazendo com que nós realmente nos importemos e nos cativemos com seu universo e com tudo que nele habita.

Undertale é o tipo de jogo que quase ninguém daria nada por ele: feito no Game Maker, com cara de ROM-hack de EarthBound e um visual que à primeira vista lembra desenhos feitos no Paint. Mesmo assim resolvi acreditar no hype e tentar entender porque falavam tanto dessa porra no finzinho de 2015.

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Logo de cara Undertale já se mostra ser algo diferente do comum, subvertendo conceitos de game design que muitos acreditam ter se tornado leis escritas em pedra com um tutorial que literalmente me pegou pela mão – e quando eu digo literalmente é literalmente MESMO – e me ensinou as mecânicas mais básicas.

Ao longo do restante do primeiro mapa o jogo se preocupa em demonstrar a sua proposta diferenciada, ensinando que precisamos apenas de uma única coisa para descobrir seus segredos, vencer seus desafios e ter uma experiência plena. Essa única coisa, esse único sentimento que o jogador precisa ter, é repetida e relembrada à exaustão ao longo do jogo inteiro, incentivando-o e encorajando-o a aceitar a proposta do jogo mesmo nos momentos em que ele desrespeita nitidamente a própria proposta.

Algo igualmente notável é a forma flexível como o jogo reage às ações e decisões do jogador, se adaptando e mudando alguns detalhes do ambiente, trechos da estória e comportamentos dos personagens. Talvez bebendo da fonte de The Stanley Parable (que eu ainda não cheguei a jogar, mas imagino que funcione de maneira semelhante), Toby Fox criou cenas, situações e consequências muito interessantes ao longo dos três caminhos possíveis de serem trilhados, que surgem dependendo de cada ação executada por você.

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Mas o que eu achei mais incrível em Undertale é que tudo isso foi feito objetivando reforçar como aquele sentimento é tão necessário: tal qual uma lição de vida a ser ensinada, nesse inusitado mundo de monstros tão ingênuos e inocentes eu era o tempo todo impelido a sempre seguir em frente valorizando a vida, fazendo amizades, me importando com os habitantes desse mundo subterrâneo e – em momentos fatídicos nos quais tal sentimento tão importante é posto à prova – fazendo o que precisava ser feito.

Ao seguir pelo caminho genocida, o simples fato de eu já ter passado momentos incríveis ao longo do caminho pacifista com aqueles personagens cativantes – e de ter me afeiçoado tanto a eles – me deixou um bocado ressabiado com a possibilidade de agora encarnar uma criança que deseja exterminar a todos.

É então que me dou conta de que a lição de Undertale não perde tempo com maniqueismos: como jogador, eu estava interpretando aquele papel e esse era o curso mais lógico a ser seguido… e como personagem central da trama, eu me sentia impelido a seguir em frente desprezando a vida, destruindo amizades, rompendo quaisquer laços com os habitantes desse mundo subterrâneo e – na fatídica e dificílima luta contra o mais carismático de todos eles, quando aquele sentimento novamente é posto à prova – fazendo o que precisava ser feito.

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Hakuna Matata, meu filho!

Um mundo diferente e fascinante com personagens diferentes do comum. Uma mistura de narrativa inovadora com mecânicas inteligentes e empolgantes. Maravilhosas e surpreendentes quebras de quarta parede. Toda a identidade pessoal de seu criador impressa a ferro e fogo em uma envolvente experiência de jogo. Se por acaso alguém por aí ainda estiver discutindo se games são ou não são arte, minha sugestão é que joguem Undertale e acabem com essa discussão de uma vez.

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Undertale é, para mim, um clássico instantâneo. Um jogo que não apenas te entretém mas que conversa com você, te cativa, te comove, te surpreende, te choca, te faz rir com piadas bobas e te desafia como poucos. E tudo para te ensinar sobre o grande valor de um certo sentimento.

Que sentimento é esse? Quem jogou, sabe. E se você ainda não sabe, definitivamente vale a pena jogar para descobrir.

UNDERTALE

Plataforma avaliada: PC/Windows | Desenvolvedor: Toby Fox | Publisher: Nenhum | Gênero: RPG

Undertale foi desenvolvido para Windows e Mac OS X e pode ser adquirido no Steam ou no site oficial (que também oferece uma demonstração gratuita).

Analista de Sistemas, desenvolvedor web e webdesigner freelancer. Sou viciado em videogames, amo literatura, tô quase voltando a desenhar e os ensinamentos de Ben Parker formaram o meu caráter.

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Arte de fundo criada por Nataly Al-Sayf
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