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Offline #02 – Tomb Raider: A Origem

Com narrativa simples e elementos bastante similares aos do jogo de 2013, Tomb Raider: A Origem marcou o retorno de Lara Croft aos cinemas

[Esta resenha contém alguns spoilers de Tomb Raider: A Origem]

Mais um dia, mais uma adaptação cinematográfica de videogame pra comunidade gamer ficar com trocentos pés atrás. É bem verdade que grande parte das reclamações é justificada e a maioria dos filmes baseados em games são, na melhor da hipóteses, medíocres. Mas de uns anos pra cá, percebe-se uma certa elevação na qualidade de algumas dessas produções – tanto como adaptação quanto como película em si – que aparentemente só não são mais valorizadas por má vontade da crítica e por birra de uma parcela do público. Alguns exemplos são Terror em Silent Hill e WarCraft: o Primeiro Encontro entre Dois Mundos, ambos apedrejados pelos críticos de cinema, mas com boas avaliações dos espectadores (de acordo com o Rotten Tomatoes).

Semana passada eu tive a chance de testemunhar o retorno aos cinemas de uma das personagens mais emblemáticas dos games. Felizmente sai do cinema com um sorriso no rosto, pois Tomb Raider: A Origem se provou ser uma produção bastante respeitosa tanto com os primórdios da franquia quanto com sua reimaginação “gamística” de 2013, além de trazer uma visão um pouco mais profunda e ainda mais interessante do background da protagonista, apesar da simplicidade da película de uma forma geral.

A premissa desse filme é bastante semelhante à do jogo lançado em 2013: Lara Croft (Alicia Vikander) descobre antigos registros e material de pesquisa de seu pai, Richard Croft (Dominic West), sobre uma misteriosa ilha fictícia chamada Yamatai, que fica na costa do Japão. Essa ilha abrigaria uma antiga maldição envolvendo uma rainha ancestral chamada Himiko que, segundo a lenda, teria o poder de controlar a vida e a morte. Junto com tais registros, Lara descobre uma gravação deixada pelo pai – que há muito desaparecera em uma expedição para essa ilha e já havia sido dado como morto -, que pede para que Lara destrua completamente o seu trabalho. Recusando-se a acreditar que seu pai está mesmo morto, Lara resolve ignorar o pedido dele e segue viagem para a misteriosa ilha, para prosseguir com a investigação sobre a lenda da rainha Himiko e, quem sabe, descobrir o que realmente aconteceu com Richard.

Logo de cara uma das coisas que mais me agradaram foi a maneira como o background desta nova Lara Croft foi construído: motivada ao mesmo tempo pelo desejo de ser independente e pela esperança de seu pai ainda estar vivo, Lara se recusa a aceitar a herança e a grande fortuna que lhe foi deixada e ganha a vida como entregadora de comida em um bairro do leste de Londres. Esse é um detalhe que eu sinceramente não lembro de ter sido abordado no game que serviu de inspiração para este filme, mas que aprimorou a personalidade impetuosa da protagonista, ao mesmo tempo em que deu uma boa motivação para as ações dela ao longo da jornada.

Também me agradou a Lara de fato ter conseguido encontrar o pai dela ao chegar à ilha. Apesar de essa parte da trama ser considerada um bocado polêmica por alguns puristas, o momento do reencontro e a breve conversa que se segue entre pai e filha foram bastante importantes, pois isso resolveu um certo problema do jogo de 2013: enquanto que no jogo presenciamos problemas de dissonância ludonarrativa que tornam incoerente a Lara ter pena de matar alguém quando dispara sua primeira flecha e cometer uma verdadeira chacina no restante do jogo, aqui no filme Richard dá a Lara um bom motivo para ela fazer chover flechas nos lacaios do vilão Mathias Vogel (Walton Goggins).

Infelizmente há alguns problemas que impedem que Tomb Raider: A Origem seja mais redondinho, na minha opinião. Para começar, as locações do filme me deram a impressão de serem um tanto quanto pequenas e contidas. Não há a sensação de uma grande jornada e os lugares tem dimensões mais modestas. Para você ter uma ideia, o templo da rainha Himiko aparentemente não é composto por mais do que umas 2 salas e um corredor que as interliga. Mas para o tipo de história que se está tentando contar e com o pouco de tempo de tela disponível, na prática isso não incomoda realmente.

Também senti falta de um elenco de protagonistas um tiquinho maior: no Tomb Raider, o jogo, Lara conta com a ajuda de seus amigos exploradores, que viajam junto com ela para Yamatai para investigar a lenda da rainha Himiko. Aqui, Lara inicia sua viagem sozinha e tem como únicos aliados o capitão do barco Endurance Lu Ren (Daniel Wu) e o próprio pai dela. Novamente isso evidencia quão modesta esta produção tentou ser na maneira de contar sua história, mas isso não chega a ser um problema grave em nenhum momento.

Soma-se ao conjunto da obra as cenas de ação muito bem executadas e extremamente fiéis ao jogo que lhe serviu de inspiração (apesar de uma alteraçãozinha aqui e ali). Já tínhamos essa boa expectativa desde a divulgação dos trailers e eu fiquei super feliz com o resultado final (a cena da Lara dentro do avião se quebrando foi sensacional!).

Uma das coisas que sempre valorizo no trabalho da desenvolvedora Crystal Dynamics com Tomb Raider é o cuidado, o carinho e o esmero com que essas empresas tratam uma das propriedades intelectuais mais icônicas dos games. Eles não apenas trazem uma Lara Croft totalmente repaginada para um público novo e mais exigente, que se tornou uma figura de identificação importantíssima em uma época em que diversidade e representatividade se mostram ainda mais fundamentais para a sociedade, como também tratam o seu passado com respeito, continuando a trabalhar com a Lara Croft clássica, ainda que ela esteja um pouco longe dos holofotes. Enquanto que a nova versão da personagem protagoniza uma nova e grandiosa trilogia (cujo mais recente título, Shadow of the Tomb Raider, acaba de ser anunciado), a antiga encarnação da exploradora prossegue com suas aventuras em jogos de escopo menor, como Lara Croft and the Temple of Osiris e Lara Croft Go, por exemplo.

Por isso eu abri um grande sorriso na cena final do filme, quando esse mesmo carinho e respeito pelo legado se fez presente na forma de uma sutil referência à Lara clássica na Lara nova (e não, não é das pistolas duplas que estou falando). Sim, é verdade que a Lara Croft antiga é cheia de problemas e ela está bastante deslocada do que se espera de um personagem bem construído em uma obra de ficção hoje em dia. Mas é muito bacana notar como os atuais responsáveis por Tomb Raider entendem que é muito mais valioso e importante preservar o passado, entendê-lo e aprender com seus erros do que varrê-lo para debaixo do tapete e fingir que ele nunca existiu.

É por isso que, como fã de longa data de Tomb Raider, eu fico muito feliz que este filme tenha sido criado e faço questão de recomendar a todos, independente de você ser ou não ser gamer. Tomb Raider: A Origem não é perfeito, mas eu posso dizer sem medo de errar que estamos sim diante de uma grande adaptação cinematográfica de um grande videogame.

TOMB RAIDER: A ORIGEM

Direção: Roar Uthaug | Duração: 1h 58min | Elenco: Alicia Vikander, Dominic West, Walton Goggins, Daniel Wu, Kristin Scott Thomas.

[Texto publicado originalmente
no site de cultura pop Mob Ground
em 11 de abril de 2018.]

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Analista de Sistemas, desenvolvedor web e webdesigner freelancer. Sou viciado em videogames, amo literatura e os ensinamentos de Ben Parker formaram o meu caráter.