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Final Fantasy VIII Remastered: ainda não foi desta vez, Square Enix

Quedas de framerate, piora nos controles e outros problemas impedem que Final Fantasy VIII retorne em grande estilo nesta remasterização

Final Fantasy VIII é, talvez, o título mais controverso da venerável franquia de JRPGs da Square Enix: sempre que rola o assunto “qual é o melhor Final Fantasy” nas rodas de conversa e alguém cita o oitavo jogo, rola um quebra-pau com a galera dividida entre os que o adoram por seu estilo visual e lúdico diferenciados, e os que o detestam por ser um Final Fantasy desnecessariamente complicado e trazer mecânicas quebradas.

Eu faço parte do time que amou Final Fantasy VIII, tendo me tornado fã desde que o joguei pela primeira vez no meu velho e saudoso PlayStation. Ainda lembro do impacto que eu senti naquela época, quando vi a célebre abertura do jogo que chutava a porta trazendo uma evolução visual nunca antes vista na franquia, e ainda lembro de como me diverti pra caramba descobrindo e explorando as possibilidades de personalização trazidas pelo sistema Junction e de como me cativei por seu intrincado enredo, que envolvia desde amores adolescentes, passando por guerras entre países a até mesmo viagens no tempo!

Em 11 de fevereiro deste ano, Final Fantasy VIII completou 20 anos de seu lançamento original no Japão. Mas a despeito disso, a Square Enix precisou rebolar até embaixo pra não deixar tal ocasião especial passar em branco. Em meio a suspeitas de que a gigante japonesa cagou no pau e perdeu o código-fonte de vários Final Fantasies, recentemente diversos títulos da franquia foram relançados para os consoles mais recentes com pompa e circunstância, mas justamente o aniversariante do momento só veio a ser relançado sete meses depois de seu mês de aniversário.

Final Fantasy VIII teve diversos relançamentos ao longo dos anos, mas no PC nenhum deles teve o mínimo de qualidade esperado: a gente lembra da tristeza que foi a primeira versão para PC (lançada em 2000 no varejo e relançada no Steam em 2013), com diversos bugs e com a trilha sonora refeita totalmente em MIDI, para o desespero dos fãs mais puristas – inclusive deste que vos digita. Mas com Final Fantasy VIII Remastered, a Square Enix promete se redimir trazendo novamente as aventuras de Squall, Rinoa, Zell e cia. com uma qualidade digna. Mas será que ela conseguiu mesmo?

Desconsiderando momentaneamente as modificações típicas de uma remasterização, trata-se do mesmo Final Fantasy VIII de sempre, com suas qualidades e defeitos originais: o sistema Junction ainda é divertido (pra quem gosta), o universo onde o jogo se passa ainda cativa (de novo, pra quem gosta), a trama ainda prende a atenção (pra quem gosta, caceta!!), o jogo de cartas Triple Triad continua divertidíssimo (disso todo mundo gosta, hehe) e os personagens ainda precisam lidar com seus problemas enquanto realizam missões como integrantes do grupo mercenário SeeD, a serviço de sua Garden (espécie de escola paramilitar ultratecnológica, onde os personagens vivem, estudam e trabalham).

Lado a lado, a versão atual remodelada e a versão original de Final Fantasy VIII

Porém, a primeira coisa bacana dessa remasterização – e a que mais salta aos olhos do jogador – é a remodelagem feita nos modelos 3D da maioria dos personagens (sim, como todo mundo já percebeu e tá cansado de ler em outros sites por aí, agora o Squall tem dedos), bem como na melhor qualidade das texturas dos personagens, monstros, cenários tridimensionais, o mapa mundi e tudo mais que é construído com polígonos.

Outro grande acerto desse relançamento finalmente resolveu um dos mais antigos e irritantes problemas da versão para PC: as músicas originais da versão de PSX estão de volta! Foi muito bacana finalmente reviver a marcante trilha sonora de Final Fantasy VIII, exatamente como ela foi originalmente concebida! Entretanto, há relatos de que as versões em MIDI também foram incluídas no jogo, para funcionarem como uma espécie de salvaguarda: sempre que uma das faixas originais deixa de tocar por algum motivo, a mesma faixa no formato MIDI toca em seu lugar.

Eu não cheguei a perceber isso enquanto jogava no PC, mas alguns amigos meus que estão jogando as versões para Nintendo Switch e para Xbox One afirmaram terem notado essa transição entre faixas.

Agora o Diretor Cid não parece mais tanto com o Robin Williams, hehe

Esse ocorrido evidencia as consequências de se negligenciar a preservação dos arquivos e assets originais de um projeto de jogo, o que implica diretamente na infeliz baixa qualidade empreendida nesta remasterização de Final Fantasy VIII.

O problema mais gritante que se nota ao começar a jogar Final Fantasy VIII Remastered é a resolução de exibição do jogo na tela. Percebeu essa moldura preta em quase todas as capturas de tela exibidas ao longo deste texto? Pois é, elas persistem não importa qual seja a resolução de tela selecionada (na versão para PC, que é a que eu estou jogando). Não dá pra fazer com que o jogo preencha a tela toda, mesmo com o ajuste de resolução mais alto e também não há sequer uma opção de colocar uma moldura com desenho bonitinho pra “disfarçar”, como é comum em ports e remasterizações de jogos antigos de outras empresas.

Também é bastante evidente a tentativa falha de amenizar a baixa resolução dos cenários bidimensionais, aplicando-lhes um filtro de desfoque/blur nos bitmaps. Isso pode ser notado não só nos cenários pré-renderizados de cidades, dungeons e outros lugares internos e externos, como também em planos de fundo de cenários de batalha e em diversas telas de interface de usuário (como aquela telinha do computador do Squall, lembra? Onde pegamos os dois primeiros Guardian Forces do jogo, Quezalcotl e Shiva). É louvável a intenção de melhorar tais imagens, já que as originais em alta resolução se perderam e as que apareciam no FF8 original de PSX tinham uma resolução extremamente baixa (320×240 ou 640×480 pixels)… mas infelizmente a abordagem utilizada não foi satisfatória.

Talvez fosse melhor se a Square Enix e as outras empresas que trabalharam nesse remaster investissem em programas de upscale de imagens como este, que utiliza Inteligência Artificial para melhorar a qualidade de imagens de baixa resolução (inclusive teve gente que fez o teste e conseguiu excelentes resultados em vários games antigos de PlayStation).

O filtro de embaçamento aplicado nos bitmaps do jogo não foi o bastante para melhorar a qualidade dos mesmos

A situação só piora quando falamos em desempenho na versão para PC. Final Fantasy VIII não é um jogo pesado, nem muito exigente em matéria de hardware… ou pelo menos não era, até o lançamento deste remaster. A antiga versão para PC, mesmo com todos os seus problemas, tinha a virtude de rodar facilmente em qualquer computador dotado de potência razoável, o que infelizmente não acontece neste novo lançamento.

Para um jogo que ocupa apenas pouco menos de 3 GB de espaço em disco, Final Fantasy VIII Remastered se mostrou ser extremamente mal otimizado para PCs. Ajustar a resolução para o máximo possível torna-se inviável não apenas pelo problema da moldura preta já citada, mas também porque isso provoca uma queda perceptível na taxa de quadros de animação.

O que não quer dizer que reduzir a resolução do jogo adiante muita coisa: mesmo colocando-se o jogo em uma resolução mais baixa (eu estou jogando com uma resolução de 1024×768 pixels), ainda assim ocorrem quedas bruscas de framerate quando passeamos por alguns cenários. Acionar a aceleração de velocidade muitas vezes não faz diferença alguma e até o momento não há nenhum meio de resolver – ou de pelo menos mitigar – esse problema por meios próprios.

O famoso jogo de cartas Triple Triad: um dos minigames mais bem bolados dos JRPGs! ^^

Para finalizar, antigos problemas do passado retornam nesta remasterização, como a ausência da função de vibração/rumble para o controle e a movimentação limitada às 8 direções.

A versão original para PlayStation não tinha esses problemas – a vibração funcionava e a direção com a alavanca analógica era em 360 graus completos – o que evidencia ainda mais a dificuldade enfrentada pela Square Enix para se virar com o pouco de material original que restou e a falta de capacidade da DotEmu e da Access Games em trabalhar na restauração desse jogo.

Enfim, Final Fantasy VIII chegou à oitava geração, mas infelizmente este jogo não sobreviveu a 20 anos de descaso de seus próprios criadores. Com tantos problemas técnicos (alguns novos e outros que jamais foram resolvidos), talvez não seja lá bom negócio pagar 60 reais por um “remastered” que de remasterizado não tem quase nada. Para se ter uma ideia, Final Fantasy IX foi um lançamento muito melhor, com gráficos mais bonitos, desempenho mais estável e uma qualidade geral mais perceptível, que custa 20 reais mais barato… e tudo isso sem precisar ter “remastered” no nome.

A tentativa de fazer um agrado a quem sentia saudade das aventuras de Squall Leonhart é sempre válida, pois Final Fantasy VIII é um jogo magnífico que merece sempre ser exaltado por suas grandes qualidades. Mas infelizmente o esforço da Square Enix e de todos os envolvidos em revitalizar sua pobre versão para PC não deu bons frutos.

A conclusão a que chego é que a melhor opção hoje em dia ainda é comprar o jogo original na PSN e jogá-lo no PlayStation 3, caso você tenha esse console.

FINAL FANTASY VIII REMASTERED

Plataforma avaliada: PC/Windows | Desenvolvedores: Square Enix, DotEmu, Access Games | Publisher: Square Enix | Gênero(s): RPG

Final Fantasy VIII Remastered também foi lançado para PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch.
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Analista de Sistemas, desenvolvedor web e webdesigner freelancer. Sou viciado em videogames, amo literatura e os ensinamentos de Ben Parker formaram o meu caráter.