Caramba… a psicose é assim?!

Senua era uma guerreira Picta que passou por uma grande tragédia: enquanto viajava em seu exílio, Vikings invadiram seu lar, saquearam, pilharam, queimaram, roubaram e destruíram… Derramaram o sangue de sua família e consagraram seu amado Dillion aos deuses deles em um grotesco sacrifício. Algum tempo depois, Senua regressa para a sua terra, agora banhada pelo sangue daqueles que ama. Encarando de frente seus medos, ela reúne forças para iniciar uma jornada para desbravar o inferno Viking, para reencontrar Dillion e vingar seu povo.

Senua sofre de psicose: ela tem visões e ouve vozes o tempo todo. Ela é incapaz de manter contato com a realidade, criando um atormentador mundo próprio em sua mente e sendo obrigada a lidar com ele dia após dia. As atrocidades cometidas pelos Vikings contra seu povo tornaram as coisas muito, muito piores para ela. Mesmo assim a jovem guerreira parte em uma jornada na qual nubla-se quase que totalmente os limites entre a psique humana e o que chamamos de real.

Senua enfrentando um de seus vários oponentes

Hellblade: Senua’s Sacrifice é construído inteiramente em cima do conceito acima descrito, impondo a nós jogadores a difícil tarefa de desbravar um lugar devastado e tendo que lidar com a infeliz condição da personagem que controlamos. Ao longo de sua jornada, nós, na pele de Senua, precisamos nos esforçar para compreender o que as vozes zumbem em nossa cabeça, tentando encontrar um pouco de ordem no meio do caos para resolver alguns puzzles envolvendo ilusões de óptica (que lembram vagamente as artes de M. C. Escher). Intercalando esses momentos de exploração, somos obrigados a enfrentar os medos de Senua, na forma de hordas de guerreiros Vikings sedentos de sangue e representações atrozes e grotescas dos deuses nórdicos – e novamente as vozes estão lá para ironicamente nos manter vivos, ao mesmo tempo em que nos atormenta.

Como se não bastasse (ainda que eu creia que seja mais uma percepção pessoal do que algo proposital), Hellblade nos obriga a encarar nossos medos mais primitivos: o medo do escuro, presente em diversos cenários, dos mais inofensivos aos mais opressores; o medo do desconhecido, por estarmos explorando um lugar hostil cujo perigo nos espreita o tempo todo; o medo da morte, que se alastra em diversos lugares por onde Senua passa, com cadáveres e sanguinolência para todos os lados… é possível correr pressionando o botão L1/LB, mas em muitos cenários eu mal fazia isso tamanha a tensão que eu sentia ao percorrer o outrora lar de Senua.

Uma das diversas visões que atormenta Senua: uma arvore em chamas, com cadáveres pendurados em seus galhos.

Coroando toda a desgraça, a psicose cada vez mais agressiva de Senua é metaforicamente simbolizada pelo que ela chama de Escuridão: uma podridão que toma conta do braço da guerreira e que vai aumentando e dominando o membro gradativamente sempre que morremos. Se a podridão chegar à cabeça de Senua, o jogo acaba definitivamente, apagando o seu save. Eu até morri bastante ao longo da minha aventura, mas não o bastante para perder meu save… ainda assim, a possibilidade de que Senua se vá para sempre (mesmo que tudo talvez não passe de um blefe da Ninja Theory), em conjunto com tudo o que o jogo nos mostra e com toda a imersão que temos ao jogar, apenas contribui para uma experiência, no mínimo, tão perturbadora quanto desafiante.

A feroz batalha contra o deus nórdico Surt

A feroz batalha contra o deus nórdico Surt

Após finalmente zerar o jogo, assisti ao documentário que o acompanha (disponível na penúltima opção do menu principal), o que, ao meu ver, só aumentou a importância desse jogo. Chega a ser ainda mais palpável a sensibilidade com que a modesta equipe de 20 pessoas que deu vida a Hellblade tratou os assuntos abordados, bem como o esmero e a dedicação dispensados para que este projeto nos coloque na pele de uma pessoa com distúrbios mentais.

Para atingir esse objetivo eles não pouparam esforços: pesquisa e aprofundamento histórico sobre os Pictos – um dos numerosos povos que compõem o que costumamos chamar coletivamente de civilização Celta –  e a sempre interessante mitologia nórdica; adoção de tecnologias pouco convencionais, como a captura de áudio 3D binaural, para criar a sensação de que as vozes da cabeça de Senua vêm de todos os lados (e é por isso que você DEVE jogar esse jogo com fones de ouvido. É sério!); extensa consultoria, entrevistas e trabalho conjunto com médicos especialistas em saúde mental e também com pacientes de psicose em tratamento, cujos relatos serviram como base para uma construção precisa e convincente da guerreira Senua, brilhantemente interpretada por Melina Juergens

Tudo para proporcionar a experiência mais realista possível, não apenas ludonarrativa, mas também sensorial e psicológica. Tudo sem o menor desrespeito por quem sofre dessa condição, sem prostituir e sensacionalizar em cima do tema (erro cometido pela série 13 Reasons Why, ao tratar de forma falha sobre depressão e suicídio). E tudo para proporcionar ao jogador a oportunidade de ver o mundo pelos olhos e pela mente de uma pessoa com psicose e de ter uma dimensão, ainda que vaga, de como esse distúrbio mental pode afetar duramente a vida das pessoas que dele sofrem.

Paul Fletcher, psiquiatra e professor de Neurociências da Saúde da Universidade de Cambridge

À direita, o psiquiatra e professor de Neurociências da Saúde da Universidade de Cambridge Paul Fletcher, que foi um dos consultores de Hellblade. Um grande trabalho de estudo, pesquisa e consultoria foi a chave para tornar a experiência do jogo crível. – Fonte: documentário Senua’s Psychosis

Hellblade: Senua’s Sacrifice poderia muito bem se passar por mais um jogo de ação entre tantos, se não fosse pelas circunstâncias de seu desenvolvimento e principalmente pela magistral construção do background de sua protagonista. Graças à ambição e coragem da Ninja Theory de ir contra a tendência de queimar rios de dinheiro com produções faraônicas (tendência esta que vem se mostrando cada vez mais nociva para a própria indústria), estamos diante de mais um título que rompe as barreiras do entretenimento e nos permite ao menos tentar entender o que muitos sentem, mas poucos compreendem ou aceitam bem em nossa sociedade.

HELLBLADE: SENUA’S SACRIFICE

Plataforma avaliada: PC/Windows | Desenvolvedor: Ninja Theory | Publisher: Nenhum | Gênero(s): Ação, Hack and Slash, Puzzle

Este jogo também está disponível para PlayStation 4.

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Arte de fundo criada por Nataly Al-Sayf
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